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Sete Músicas para serem entendidas

♪♪ "Que só eu quem podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos...". Você, com certeza, querido leitor, soube completar o versinho. Mas você nunca pensou em ir além? Nunca pensou em descobrir o que o Poeta quis dizer com as suas palavras, ao invés de ficar cantarolando o poema sem saber, realmente, a sua origem de inspiração?

Algumas músicas fazem tanto sucesso e ficam tanto nas nossas cabeças, que o ato de cantá-las se transforma numa atitude mecânica. Mas a música é muito mais bonita quando a gente sabe por que foi escrita; quando nos colocamos no lugar de quem a escreveu, e descobrimos que temos o poder de utilizar as mesmas palavras para expressar algo que é nosso. Dilui-se o espaço entre você e o seu ídolo, e o efeito que a música causa torna-se mais puro e intenso.

Foi pensando nisso que, dentro do meu leque restrito de conhecimento musical, escolhi "as 7 músicas para serem entendidas". Umas famosas, outras nem tanto. Todas muito bonitas. Tentarei explicar o que o letrista realmente quis dizer com suas estrofes, que no caso das 7 músicas a seguir, estão repletas de eufemismos e metáforas que só anseiam passar uma mensagem.

Ah! E para que não sabe o que são "segredos de liquidificador": São, simplesmente, lambidas demoradas no ouvido, num movimento circular uniformemente variado. Eis as notas:

7- Desastre Mental- Cazuza, Exagerado, 1985.



Muita gente pensa que Cazuza escreveu essa letra depois que descobriu ser Soro Positivo, mas não. Esse Poema é de 1984, ano no qual o Barão Vermelho conseguiu seu primeiro Disco de Ouro, e no qual Agenor começou a pensar em abandonar seus irmãos.

A música é, basicamente, sobre um cara, bêbado, numa festa, e que já não aguenta mais ouvir os desabafos de sua "colega". A canção é meio um "cala a boca e me dá logo, porra". O autor não se importa nada com as consequências do seu ato, e ainda esclarece à amiga que aquilo que ele sente não é amor: "prefiro te manter ao lado direito do meu peito...", e ao mesmo tempo em que a convida para dar uma "saidinha do recinto". Diz que os dois são sobreviventes de um desastre mental, ou seja, eles têm todo o direito de fazer o que querem, sem pensar e sem se importarem com o que acha a sociedade, que não é sobrevivente, é o próprio desastre mental.

6- O Vento Noturno do Verão- Nando Reis, Para quando o Arco-Íris encontrar o Pote de Ouro, 2001.



A música, apesar de toda a fantasia que circunda o Poema, retrata nada mais que o primeiro beijo de dois alunos do primário, que fugiram do lugar que lhes era estabelecido e "escorregaram para o pátio do Ginásio" através de uma ladeira.

Aí, o ex-titã começa a enfeitar a música com palavras que retratam nada mais do que toda a expectativa e euforia do primeiro beijo. Ele também deixa claro todo o medo que sentiu, e quantas vezes ele pensou antes de decidir, de tomar coragem: "Como a coragem que nos traz o soprar do vento no outono do verão". A frase anterior também nos mostra que o beijo foi dado lá para o mês de fevereiro, o que deixa claro que o menino teve as férias todas para pensar nisso e decidir tentar. E pelo jeito deu certo: "Somos capazes de pensar, mas não deixo de admirar as rochas que não precisam da respiração"; o único empecilho para que o beijo seja eterno é a própria falta de fôlego, ou seja, a necessidade da respiração.

5- Trem das Cores- Caetano Veloso, Cores e Nomes, 1982.



Eu sempre gostei muito dessa canção. E ela foi a única da lista que eu entendi completamente, logo de primeira. Então, vai ser rapidinho de explicar: um rapaz, apaixonado, viaja de trem para se encontrar com sua namorada, que provavelmente mora em outra cidade. É claro, que ela era o único pensamento dele durante a viagem; ele está feliz, e tudo que ele percebe fora e dentro do trem vira inspiração. Inspiração que vira um Poema de amor destinado à menina "de cabelos pretos e lábios castanhos, ou melhor, cor-de-açaí" que o espera na estação de sua cidade.

4- Um Trem para as Estrelas- Cazuza e Gilberto Gil, Ideologia, 1988.



Uma segunda-feira preguiçosa. O Poeta abre a janela e vê lá embaixo a pobreza da cidade do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor no alto do Corcovado meio que os convence a continuar a vida, apesar do sofrimento. Aí está o ponto central da música: "a crítica à Igreja, e à essa idéia de que Jesus Cristo é nosso salvador e filho de deus. Ao sofrimento na vida como causa de uma ida ao paraíso, na morte; como se a tristeza fosse uma maneira para a gente se salvar depois.

O tempo das mentiras católicas passou. Esse papo de que alguém foi crucificado para nos salvar é onda. Devemos ser mais racionais, pois a época dos navios negreiros (assim ele se refere ao tempo de Igreja) se foi; é hora de embarcar em outras correntezas.

3- Para lá- Adriana Calcanhotto, Maré, 2007.



Escutei essa música pela primeira vez no show da Adriana no Álvares Cabral, em julho. Em Agosto, mais uma vez, no show de despedida do disco "Maré", no teatro do Jardim Botânico. A letra da música é muito triste, e a melodia tão quanto.

Na verdade, eu não sei nem como descrever o que entendo dela. Mas que eu entendi, entendi. A composição é do Arnaldo Antunes, o que dificulta ainda mais, pois a expressão dele é bem singular (e circular). Mas vamos lá: Pense numa pessoa esclarecida, que já viveu e pode decifrar todos os segredos da vida, cientifica e filosoficamente. Ela só não pode entender esse amor que ela sente, um amor não correspondido. Não consegue esquecer, está acima de qualquer ciência. Acima de qualquer razão: "A Montanha insiste em ficar lá, parada" é uma metáfora para o sentimento que continua estático dentro dela.

2- Maluca- Cássia Eller, Com você o meu Mundo ficara Completo, 1998.



É a história de uma menina que experimentou o sexo pela primeira vez. Não parece, mas é. Um dia, pela manhã, ela acordou e viu sua irmã no maior rala e rola com um rapaz (ou moça?), e sentiu vontade de fazer também. E fez. Chamou algum rapaz (ou moça?), e fez amor por toda a casa.

Acho que 90% das pessoas que gostam da música, não conhecem o seu verdadeiro significado. A rosa é a metáfora do desejo, da paixão... Mas muita gente pensa que é só mais uma música bonitinha. Digo à elas: sempre bata na porta da sua irmã, antes de entrar no quarto.

1- Flores- Titãs, Õ Blesq Blom, 1989.



Eis a campeã de todo e qualquer concurso de significados inesperados. Acredito que a maioria de vocês sabem o sentido real da música, mas eu proponho uma visão diferente da estabelecida.

Por se tratar da campeã, uma análise minuciosa do Poema:

"olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho
chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro"

Um camarada, que anda mal na vida, e que deve ter tomado uns "foras" da mulher que ama, chega em casa nervoso, sem se preocupar em não pisar nas rosas que estão no caminho até a porta da casa. Chega a seu quarto, se sente em frente ao espelho e não vê mais sentido na vida. Chora pelas flores que destruiu no caminho.

"os punhos e os pulsos cortados, e o resto do meu corpo, inteiro
há flores cobrindo o telhado, embaixo do meu travesseiro
há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo"

Ele corta os pulsos numa tentativa de suicídio (mas o resto do corpo continua inteiro). Está deitado na cama, esperando a morte chegar, e o vermelho do sangue se confunde com a cor das rosas pisoteadas, e o que só consegue é enxergá-las em seus poucos lapsos de visão.

"a dor vai curar essas lástimas, as flores têm gosto de lágrima
o soro tem cheiro de morte, a dor vai fechar esses cortes.
As flores de plástico não morrem"

Mas o nosso projeto mal acabado de suicida não conseguiu morrer. Ele foi socorrido, está agora no hospital. Alguém, provavelmente a moça por quem ele é apaixonado, trouxe rosas para lhe estimar melhoras. E somente a dor desse amor não-correspondido será capaz de fechar os cortes.

No final, ele se compara à uma rosa de plástico, que não pode morrer, pois já está vazia por dentro. Sua alma já está morta.


Bruno Alcantara

3 comentários:

darsh. disse...

gostei da idéia de analisar as letras :)
nunca mais vou ouvir Para Lá da mesma forma, agora.

vai ficar na fotografia disse...

Eu jamais consiguiria fazer análises assim, sou do time que só ouve música pra se distrair e só...


;* Pri

Thalles Simplício disse...

velho, isto não passa da sua interpretação. convenhamos, hein!

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